sexta-feira, 15 de abril de 2016

Perguntas de um Operário Letrado

Quem construiu Tebas, a das sete portas?
Nos livros vem o nome dos reis,
Mas foram os reis que transportaram as pedras?
Babilónia, tantas vezes destruída,
Quem outras tantas a reconstruiu? Em que casas
Da Lima Dourada moravam seus obreiros?
No dia em que ficou pronta a Muralha da China para onde
Foram os seus pedreiros? A grande Roma
Está cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem
Triunfaram os Césares? A tão cantada Bizâncio
Só tinha palácios
Para os seus habitantes? Até a legendária Atlântida
Na noite em que o mar a engoliu
Viu afogados gritar por seus escravos.

O jovem Alexandre conquistou as Índias
Sozinho?
César venceu os gauleses.
Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?
Quando a sua armada se afundou Filipe de Espanha
Chorou. E ninguém mais?
Frederico II ganhou a guerra dos sete anos
Quem mais a ganhou?

Em cada página uma vitória.
Quem cozinhava os festins?
Em cada década um grande homem.
Quem pagava as despesas?

Tantas histórias
Quantas perguntas

Bertolt Brech

terça-feira, 1 de março de 2016

Como depender?

Estou lendo um livro sobre oração.
Parece que há anos sou chamada por Deus para ir além na vida devocional, mas sempre me sinto aquém do q se espera de mim. Ou do que eu  acho que poderia oferecer...

Bom, mas o livro é extremamente prático e tem me ajudado a avançar. Um trecho que li hoje me lembrou o post Ballet e dependência que escrevi em 2013. Eis o trecho:

DUAS ABORDAGENS MAL ORIENTADAS
No entanto, alguns de nós relutam em abrir-se para a orientação de Deus. Talvez conheçamos cristãos que afirmam viver assim, porém a abordagem deles não nos deixa à vontade. Parece que fizeram uma lobotomia intelectual em si mesmos, e ficam esperando que o Espírito Santo escolha suas meias de manhã e o restaurante para o jantar. Afirmam vivenciar uma orientação por hora, uma visão por dia, um milagre por semana.
Minha preocupação é que estas pessoas têm a mentalidade tão celestial que são de pouca utilidade aqui na terra. O que elas tentam mostrar como direção divina não passa, na verdade, de uma forma de irresponsabilidade bem humana. Conheci, certa vez, um pastor com mentalidade celestial. Ele ficou pasmo ao saber quanto tempo eu usava preparando cada sermão que pregava. Em geral gasto de dez a vinte horas lendo, estudando, orando e fazendo três esboços para cada sermão. Este pastor exclamou: "Você se dá a todo esse trabalho? Eu simplesmente vou para o púlpito e aguardo um milagre!"
Fui tentado a perguntar se a congregação via seus sermões como milagres. Não me entenda mal. Como expliquei no capítulo sobre a oração que move montanhas, tenho visto Deus realizar milagres de transformação de vidas no púlpito, mesmo no meu púlpito! Acho, porém, errado, você enfiar as mãos nos bolsos, seu cérebro em uma gaveta, pular da torre e esperar que Deus o segure porque você já está caindo.
Algumas pessoas, no entanto, vão para o extremo oposto quando se trata de ouvir a voz de Deus. Em uma reação à óbvia interpretação errada e abusos do ministério do Espírito Santo, muitos cristãos correm na direção contrária, tornando-se adversários do sobrenatural.
Para esses racionalistas modernos, a inspiração do Espírito Santo vai contra a natureza humana e os padrões de pensamento convencionais. Acostumados a andar pela vista, a controlar o próprio barco e a tomar decisões unilaterais, eles são escrupulosos quanto a permitir que o Espírito Santo inicie um ministério sobrenatural em suas vidas. Gostariam que o pacote fosse um pouco mais bem feito; que seu ministério fosse quantificado e descrito. O Espírito Santo parece indefinível e misterioso, o que os deixa nervosos.
Assim, quando sentem uma orientação que poderia vir do Espírito Santo, eles resistem. Depois de analisá-la, concluem: "Não é lógico, portanto, não vou prestar atenção a isto."

Do livro: Ocupado demais para deixar de orar

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Porque Serviço Social ?


Ontem participei da segunda etapa de seleção para um estágio e, nessa fase, pediram-me para escrever uma redação com o seguinte tema: “Porque você escolheu o Serviço Social como profissão?”

Eis minha resposta:

Quando fiz 20 anos surgiu uma inquietação em mim: a desigualdade social. Naquela época, eu pensava: “sou branca, de classe média, tive acesso a ótimos colégios, estou bem empregada aos 20 anos, já fiz um curso completo de inglês e tenho uma incrível gama de possibilidades à minha frente. Porque sou a minoria?”

Essa inquietação crescia dentro de mim, havia em mim um sentimento de dívida para com meus pares pois a vida havia me proporcionado muito e eu sentia a responsabilidade de retribuir à ela de alguma forma, na pessoa do meu semelhante.

Sempre compartilhei sobre essa inquietação com minha família e amigos. Já ouvi dezenas de vozes sobre esse assunto. Já fui rotulada de Madre Tereza, romântica e de ser movida pela culpa. Até que cheguei à uma conclusão: essa era uma questão minha e só eu poderia dar o direcionamento correto a esse sentimento a fim de torná-lo uma resposta para mim e para o mundo.

Foi dessa forma que aos 23 anos, optei pelo Serviço Social, para satisfazer minha necessidade de respostas para as contradições da sociedade e para me posicionar frente as mesmas, a favor daqueles que vivem em situação de vulnerabilidade social.

Tenho certeza de que não posso mudar o mundo sozinha, mas minha busca definitivamente não é esta. Busco um espaço de trabalho em que o que eu faça contribua para a melhora da qualidade de vida de pessoas que nasceram em berços e Ceps menos favorecidos.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Manual para jovens sonhadores

 



"Essa história me lembrou de uma experiência muito especial que eu tive há alguns anos, em uma dessas épocas em que eu estava procurando por alguma coisa que fizesse sentido. Lá estava eu, na Guatemala, com uns trinta e poucos anos passando por um dos meus muitos momentos de não saber bem

o que queria fazer da minha vida, me questionando se precisava voltar a mudar de emprego ou não e lendo todos os livros que me ajudassem, quando resolvi que a solução para meu desânimo poderia ser um veleiro. Logrei convencer duas amigas igualmente inquietas e solteironas, também meio sem rumo, a entrar na aventura comigo.
Para nossa alegria, de cara tivemos muita sorte, porque achamos um veleiro que tinha acabado de afundar e que estava sendo vendido por um preço que, dividido entre as
 três, poderíamos pagar. Detalhe: nenhuma de nós jamais tinha velejado, e achávamos que
só com uma pintura e cortinas novas o veleiro estaria pronto para navegar. Seríamos as três primeiras guatemaltecas a dar a volta ao mundo.


Bom, logo descobrimos que teríamos um belo trabalho pela frente… O sistema elétrico precisava ser completamente trocado,o mastro estava avariado e grande parte da madeira interna tinha


apodrecido, mas pelo menos o barco flutuava e tinha um motor e velas que funcionavam.

Começamos a ir todos os fins de semana trabalhar no nosso barco, e, nos outros dias, líamos todos os livros sobre velejar que conseguíamos achar. Também fizemos algumas aulas básicas de velejo e, conforme fomos aprimorando os nossos conhecimentos

marítmos, arriscamos pequenas aventuras, percorrendo baías próximas de onde nosso barco estava ancorado. E também passamos a fazer parte da comunidade da marinha e a conhecer alguns dos marinheiros, verdadeiros lobos do mar, que tinham histórias fantásticas de travessias pelo oceano.  
 
Nosso sonho era grande, e não desanimamos apesar de tudo o que precisava ser consertado e de tudo o que implicaria planejar e fazer uma viagem ao redor do mundo. E nossas vidas adquiriram uma razão de ser, de repente tínhamos um propósito pelo qual
correr atrás.

 

No fim, não conseguimos velejar além da região onde estava ancorado nosso veleiro.

De repente meu trabalho me ofereceu uma oportunidade de ir para a Nova Zelândia, que me pareceu uma forma mais rápida (e confortável) de ver o mundo, mas
nunca vou me esquecer de algumas palavras que meu pai me falou nessa ocasião:

“Que bom que você conseguiu realizar esse sonho tão cedo.

Existem pessoas que têm de esperar uma vida inteira até se
aposentar para poder viver uma experiência assim.”
 
 E pensar que eu ocultei esse veleiro por meses dos meus pais por medo do que eles falariam... Tinha que ter percebido que estava mentindo por diversão!
 
 
Até hoje, cada vez que me lembro desses dias, sinto  uma felicidade enorme de saber que consegui fazer isso. Contra tudo o que os outros pensaram de negativo, nós conseguimos viver uma vida de marinheiras malucas, levando turistas e amigos para pequenas excursões, ouvindo música enquanto as velas se inflavam de ar, improvisando nossas
refeições a bordo e acordando cedo com o movimento das ondas.

Poucas coisas se comparam a essa experiência que me deixou tantas memórias inesquecíveis e a esse sentimento indescritível que ainda tenho quando  estou fazendo algo de que realmente gosto, por mais maluco e sem cabeça que possa parecer aos outros.

Porque a única coisa mais dolorosa do que não alcançar um sonho é não correr atrás dele, desistir e se conformar sem sequer tentar, perdendo a energia e a felicidade que a aventura pode nos gerar."

Nathalie Trutmann



























 

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Desconforto sadio

"Quando uma águia vai ter filhotes ele vai ate o pico mais alto de uma montanha e constrói o seu ninho.

A mãe águia constrói seu ninho com gravetos, e depois forra em cima dos gravetos com penas e folhas para

as pontas dos gravetos não machucarem seus filhotes.

Quando os filhotes nascem à mãe águia traz todos os dias o alimento dos filhotes para que eles cresçam saudáveis.

Quando os filhotes vão crescendo a mãe águia tira todas as penas do ninho e deixa apenas os gravetos para que aquele

ninho não seja mais um lugar de conforto para seus filhotes.

A mãe águia coloca então o seu filhotinho na beirada do ninho e o empurra para o precipício, assim para que ele perca o medo e voe.

Quando a mãe vê que o seu filhote esta quase chegando ao chão ela o pega com suas garras e o leva para o ninho de novo.

Só que a mãe águia não desiste ela faz o mesmo procedimento sem cessar ate que o seu filhote aprenda a bater as asas e a voar sozinho."

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Bucomaxilofacial



Hoje eu arranquei um dente siso com um profissional muito bom: Marcelo Botelho. Pra quem não sabe o nome do profissional que faz este procedimento é Bucomaxilofacial.

Depois da retirada do dente que durou uns 20 minutos (no máximo) fiquei refletindo sobre aquela profissão: cirurgião bucomaxilofacial. Fiquei pensando o que deve ter motivado aquele homem a exercer tal função. Fiquei pensando: “será que ele não cansa de arrancar dentes?”,“será que ele tem desafios nesta profissão?”, “será que ele é feliz?”, essas perguntas típicas que se fazem nas empresas, rs.

Bom, se ele não for feliz, pelo menos deve ganhar bem nesta atividade. Afinal muitos precisam de um bucomaxilofacial pelo menos umas  4 vezes na vida. E esta é uma atividade que requer estudo, especialização, um investimento que tem q ter seu retorno. Ok, ok. Ele poderia ser um assessorista, ou um auxiliar de serviços gerais daquele prédio no qual trabalha, mas a vida ou seus pais lhe deram a oportunidade de estudar e ser o tão famoso “alguém”. (Vá estudar para ser alguém na vida, meu filho – talvez ele ouvisse da sua mãe)

Bom, onde quero chegar? Nem eu sei direito. Mas essa breve reflexão me fez lembrar de uma visitante que recebi em minha casa, de outra cidade, que veio para um congresso batista sobre vocação. Ela está beirando seus 40 anos, é empregada doméstica e tem um olhar um pouquinho triste. Outra pessoa que recebi é a ministra de louvor da igreja dela, uma jovem de seus 28 anos,  que estudou música e fonoaudiologia, proveniente de uma família estruturada. Esta jovem disse em um determinado momento da nossa conversa que não queria se propor a fazer nada se não fosse para fazer com excelência.

Minha reflexão consiste em: será que alguém que trabalha para ganhar o salário mínimo e garantir sua sobrevivência tem condições de pensar em excelência, em vocação? Acho que fazer o que se gosta ou trabalhar no que se tem a tão famosa vocação é privilégio de alguns, não todos.  Isso não quer dizer que não acredite que quem ganha um salário mínimo não tenha chances de estudar ou trabalhar mesmo e lutar para ganhar mais, para se desenvolver em seus talentos, não! Mas há de se convir que as possibilidades para os dois tipos de pessoas não são tão iguais.

É aí que penso nas palavras de Jesus: “A quem muito é dado, muito será cobrado”, cobrado (creio eu)  no repartir do dinheiro, dons, amor, sorrisos, sonhos e visão. Se sou rico em algum destes pontos ou em todos, serei cobrado sobre a multiplicação destes “talentos”, o uso que faço deles.

Lembro também sobre algo que ouvi de um dos preletores do congresso sobre vocação. Ele mencionou um autor ateu: Luc Ferri (No livro: “aprendendo a viver”) que diz que o princípio de igualdade entre os homens veio do cristianismo.

Este assunto dá pano pra manga. Mas minha reflexão por hoje é esta.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Cultivar a alegria de cada dia

 
" Um elemento que caracteriza a alegria é o facto dela não nos pertencer. É pessoalíssima, é completamente nossa, identifica-se connosco, mas não nos pertence. A alegria não nos pertence. A alegria atravessa-nos. A alegria é sempre um dom. A alegria nasce do acolhimento. A alegria nasce quando eu aceito construir a minha vida numa cultura de hospitalidade. Se insonorizo o meu espaço vital, se impermeabilizo a minha atenção, a alegria não me visita. A alegria é um dom da amizade acolhida.
A alegria não é programada. Não posso, por exemplo, dizer: daqui a um minuto vou-me rir. Não sei quando é que me vou rir. A alegria é um dom que me visita na surpresa, no não anunciado. E nesse sentido tenho de viver em hospitalidade. O meu coração é uma soleira, uma porta entreaberta. A minha vida vive do acolhimento amigável. Temos de adquirir uma porosidade, deixarmo-nos tocar, deixarmo-nos ligar pelo fluxo reparador da vida.
Há um filme de Ingmar Bergman em que uma personagem é uma rapariga anoréxica - e sabemos como a anorexia é uma forma de desistir da própria vida, de desinvestir afetivamente. A rapariga vai falar com um médico e ele diz-lhe isto, que também vale para nós todos: «Olha, há só um remédio para ti, só vejo um caminho: em cada dia deixa-te tocar por alguém ou por alguma coisa.» A alegria é esta hospitalidade.
Os dias sem alegria são completamente sem memória. Chegamos ao fim não lembramos um único gesto, uma única fase, um único encontro, uma única ação, não temos nada para contar. Tive de ver e de escutar muitas coisas, e de estar entre muita gente, mas não quis nada daquilo nem daqueles; não permiti que existisse um trânsito, um retorno; não abri o meu coração ... Há que transformar a nossa vida no sentido da hospitalidade. A amizade ensina-nos isso.
Não há alegria sem inocência. Mas inocência naquele sentido que apontava a escritora Cristina Campo: «Nós não nascemos inocentes, mas podemos morrer inocentes.» A inocência da infância espiritual é aquela inocência com a qual e pela qual podemos morrer: a inocência de um coração simples; da gratuidade; da confiança.
Se não tenho um coração de criança não sou herdeiro do Reino de Deus. Isto é, não sou herdeiro do reino da vida, não vejo cintilar, não vislumbro. E aqui, as crianças são exemplares porque elas entretêm-se com os pequenos nadas, que no fundo são as coisas mais sérias, as coisas donde colhem a luz. E nós precisamos disso. Precisamos dessa infância. De descobrir infâncias dentro de nós. Não é por acaso que todos os amigos são amigos da infância, mesmo aqueles que fazemos pela vida fora. A principal infância a testemunhar é essa futura.
Em vez de crescermos na severidade, na intransigência, na indiferença, no sarcasmo, na maledicência, no lamento, caminhemos suavemente no sentido contrário. Cresçamos na simplicidade, na gratidão, no despojamento e na confiança. A alegria tem a ver com uma essencialidade que só na pobreza espiritual se pode acolher."

José Tolentino Mendonça
In Nenhum caminho será longo, ed. Paulinas